Na noite de 6 de julho de 2022, a convite do Clube Paranaense de Montanhismo (https://www.cpm.org.br/) foi proferida, na sede daquele clube, uma palestra sobre a Rede Brasileira de Trilhas para a comunidade montanhista de Curitiba.
O evento serviu para aproximar ainda mais a Rede e o Montanhismo organizado.
Na ocasião, também foi assinada a adesão oficial da Rede Brasileira de Trilhas à Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação. A Rede Pró-UCs é uma coalizão de entidades defensoras da conservação e, entre outras coisas, é a organizadora do evento "Um Dia no Parque", do qual nós, REDE BRASILEIRA DE TRILHAS, somos um dos maiores participantes.
De Paulo Afonso, na Bahia, até Pão de Açúcar, em Alagoas, a Trilha dos Cânions do São Francisco passa por trechos terrestres e protegidos num percurso de cerca de 80 km
O rio São Francisco que flui no sentido geral sul-norte a partir de sua nascente em Minas Gerais, curva abruptamente para leste em seu curso médio na Bahia. O rio caminho, que num passado geológico e remoto, continua a correr na direção do litoral norte, foi barrado pelo norte, como a Chapada do Araripe, tão grande como um sistema de obstáculos, até que rompeu pelos obstáculos para leste e se abriu rochas fraturadas do Cráton do São Francisco (assoalho da crosta terrestre antigo e estável onde não se verifica grandes movimentos tectônicos), esculpindo seu curso num profundo cânion de 60 logo após desabar na Cachoeira de Paulo Afonso.
A imensa cachoeira atrai muitos aventureiros, cientistas e autoridades no século XIX como o explorador Richard Burton e o próprio Imperador D. Pedro II. Esta maravilha da natureza motivou a criação de um parque nacional em 1948, que foi extinto em 1969 para a implantação de um complexo hidrelétrico. O belo cenário recebeu nova proteção em 2009, com a criação do Monumento Natural do Rio São Francisco na divisão dos estados de Alagoas, Bahia e Sergipe.
Pintura da Cachoeira de Paulo Afonso em 1850, antes da hidrelétrica. Arte: EF Schute/Acervo MASP
A atividade econômica da região dinamizou-se com a criação da Fábrica da Pedra por Delmiro Gouveia em 1912. Este empreendedor construiu a primeira hidrelétrica da região em 1913. Trinta e cinco anos depois, em 1948, o governo brasileiro criou a Companhia Hidrelétrica do São Francisco para aproveitar a energia da cachoeira de Paulo Afonso, construindo várias hidrelétricas nos anos subsequentes.
A região também ficou famosa por ser palco privilegiado da ação dos cangaceiros de Lampião. Aqui o notável notável muitos jovens para o seu bando e o grande amor de sua vida: Maria Bonita, nascida e criada nestas caatingas. O emblemático casal e mais alguns companheiros de bando na morte trágica Grota do Angico, em 1938.
A pegada e logo da Trilha dos Cânions do Rio São Francisco. Foto: Eid Kentenich
O Monumento Natural, além das águas do seus incríveis cânions, se destaca ainda pela biodiversidade e pelos sítios ainda mais arqueológicos com pinturas rupestres datadas de 10 mil anos. A unidade de conservação é visitada desde programas pela vida privada, que oferece atividades de catamarã e práticas de meios de comunicação social. Desde 2017 é feito o monitoramento da atividade turística, ano que ocupa a 7ª posição – entre 334 unidades de conservação em conservação do país –, com mais de 318 mil entradas de visitantes. Em 2019, uma área protegida atingiu uma marca de 713 mil visitas e ocupou a 6ª no ranking.
Todo este conjunto de motivos motivou a criação de uma trilha de longo curso que pode ser conectado a um caminho maior que acompanha todo o percurso do Velho Chico. Como chefe do Monumento Natural, uma ideia nasceu quando percebia a necessidade de sinalizar como trilhas já existentes na região. Solicitei apoio à Coordenação de Uso Público do ICMBio no final de 2017 e, já em agosto de 2018, promovemos a 1ª Oficina de Implantação e Manutenção de Trilhas do Baixo São Francisco – Módulo Sinalização, ministrada por Pedro da Cunha Menezes.Nesta ocasião foram sinalizados 5 km da Cânions recém-criada, e foi marcada Trilha dos seus pegada (e logotipo) que é marcada por uma pintura rupestre encontrada na região dos cânions, e um mandacar característica da Caatinga encontrada na região dos cânions, e um mandacar da característica da Caatinga .
Desde outros, a Trilha dos Cânions segue em implantação, com 8,5 km sinalizados em 2021, e com previsão de completar 20 km em 2022. O objetivo é implementar trechos da trilha completar o percurso dos cânions e até fazer a conexão com a nova conexão Trilha do Trem em Piranhas (no percurso da antiga estrada de Ferro Paulo Afonso) e Trilha dos Canoeiros no Pão de Açúcar, ambas em Alagoas.
Quando estiver totalmente, a Trilha dos Cedions poderá proporcionar 6 a 8 diascerca de 80km) de caminhada, com trechos terrestres e trechos de implantação (feitos tanto com pequenos botes quanto com canoa de tolda) em ambas as margens de São Francisco. Um percurso que valoriza os atributos cênicos, culturais, históricos e culinários da região em que está incorporado.
No contexto da Rede Brasileira de Trilhas, a “Trilha dos Cânions do São Francisco” será considerada uma trilha de longo curso de nível nacional. O objetivo é integrar no conjunto principal da conservação, desde o ponto do Velho até a trilha e outros pontos de conservação, desde o ponto de vista do rio, a partir da foz.
Assista a live da Rede Brasileira de Trilhas em parceria com ((o))eco sobre a Trilha do Velho Chico:
Fotógrafo profissional desde 1977, Azoury faleceu neste final de semana, em Petrópolis (RJ),
após um acidente de carro
O fotógrafo Ricardo Azoury. Foto: Ana Paula Oliveira Migliari/TV Brasil
Estávamos ainda no século passado. A África do Sul, sob a liderança transitória de Nelson Mandela e Frederick de Klerk se debatia para sair do Apartheid sem morrer afogada em um banho de sangue. Era um fim de tarde de um sábado ensolarado. No carro, vínhamos felizes de uma visita ao Parque Nacional Addo. Nos dirigíamos ao Parque Nacional Tsitsikamma, onde, na terça-feira, faríamos a primeira de uma série de visitas técnicas a trilhas de longo curso na África do Sul, com vistas a desenvolver um sistema de trilhas de longo curso no Brasil, então um sonho distante.
Tudo corria bem até que o fotógrafo da expedição, manuseando seu equipamento, deu um chilique: “precisamos mudar a rota! Temos que entrar em Port Elizabeth!”. Não era um desvio simples, implicava mais de 200 quilômetros a mais no trajeto. Luis Otávio Teixeira de Freitas e eu, perplexos, perguntamos a razão. No banco do carona, Ricardo Azoury, suava frio e exalava ansiedade. Não havia ainda internet e as fotos eram todas feitas em filme. Azoury não podia prosseguir daquele jeito até segunda-feira, ele tinha “apenas” cinco rolos de filme virgem. Rimos com a piada.
Não era piada. “Cinco rolos não dão para nada, nada! E se aparecer um disco voador? Vou perder a maior oportunidade profissional da história?”. Rimos mais uma vez. Não era piada de novo. Ao fim e ao cabo, desviamos e fizemos um longo périplo pelas lojas fechadas da pacata Port Elizabeth até encontrarmos um pequeno quiosque com meia porta aberta. Perdemos o dia, mas, ao longo da jornada, descobrimos que ali pertinho, em Mossel Bay, estava se iniciando uma atividade turística de mergulho com tubarões brancos, algo totalmente novo. Mais uma vez, mudamos nosso trajeto e nossa programação: como Azoury iria segurar sua ansiedade se não fotografasse os tubarões brancos?
No final, deu tudo certo. Fizemos as reuniões técnicas necessárias e saíram matérias sobre a Trilha Tsitsikamma, sobre o Parque Nacional da Montanha da Mesa e sobre o mergulho com os tubarões brancos, além de boas avaliações políticas sobre o momento que a África do Sul atravessava.
Assim era Ricardo Azoury, profissional focado e pronto a aproveitar todas as oportunidades que a vida lhe dava. Fotógrafo de mão cheia, que com sua câmara perspicaz, mais de uma vez me obrigou a mudar o rumo do texto para conseguir acompanhar a imagem que ele havia capturado. Ambientalista dedicado que construiu uma bela carreira fotografando trilhas no Rio de Janeiro, montanhas no Tumucumaque, bromélias em todo o Brasil, além de cada pedaço de jornalismo real que lhe cruzasse o caminho. Certamente há de entrar para a história como um dos maiores fotógrafos de natureza e jornalistas fotográficos ambientais de nosso país.
Com Azoury, aprendi muito e construí uma história comum: ele é o fotógrafo dos livros “Trilhas do Rio” e “Transcarioca – Todos os Passos de um Sonho” e foi companheiro das primeiras viagens técnicas de aprendizado que subsidiaram a criação do que hoje é a Rede Brasileira de Trilhas.
Bom amigo, conhecedor dos melhores vinhos, bom garfo, brasileiro que amava nosso país, pai e padrinho da Trilha Transcarioca. Ricardo Azoury faleceu neste final de semana, em Petrópolis (RJ), após sofrer um acidente de carro. Deixa muitas saudades na terra mas, com certeza, será recebido de braços abertos no Céu.
A trilha de longo curso une natureza, história e cultura em percurso de 170 milhas no interior do estado de Minas Gerais,
que refaz caminhos do naturalista francês.
Caminhantes no trecho do Caminho de Saint Hilaire. Foto: Júlio César de Paula
O Caminho Saint Hilaire (CaSHi) é uma trilha de longo curso voltada para caminhantes e ciclistas com cerca de 170 km entre Conceição do Mato Dentro, Serro e Diamantina. Estes municípios, no coração de Minas Gerais, na Serra do Espinhaço Meridional, possuem relevância tanto em patrimônio natural, englobando geodiversidade, biodiversidade, quanto em patrimônio histórico, com igrejas e casarios do período colonial, manifestações culturais, folclóricas, ofícios e modos de fazer. Neste contexto, o CaSHi foi idealizado para estimular a conservação ambiental e valorização do patrimônio cultural, as tradições e os costumes do meio de vida local, assim como o legado de informações do naturalista Auguste de Saint-Hilaire.
O caminho leva o nome desse naturalista francês, que esteve no Brasil entre 1816 e 1822, descreveu inúmeras espécies de plantas e coletou milhares de outras no Brasil, que podem ser encontradas nos três volumes da Flora Brasiliae Meridionalis. O naturalista deixou um legado na forma de inúmeras obras, especialmente conhecidas por seus relatos de viagem, feitos a partir de seus diários de campo. Como exemplo, citamos Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais; Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil; Quadro Geográfico da Vegetação Primitiva na Província de Minas Gerais; Plantas Usuais dos Brasileiros, dentre outras. Os dois primeiros volumes contêm narrativas da região e serviram como base na demarcação do Caminho Saint Hilaire.
A Logomarca do Caminho Saint Hilaire traz a folha do Pau-Santo,
espécie descrita por Saint-Hilaire na região, simbolização o território do CaSHi,
com ondulações em referência ao relevo montanhoso do Capão
da Maravilha, Pedra Lisa e Pedra Redonda. A marca também apresenta referências dos dois
maiores marcos geográficos da região: o Pico do Itambé e a Cachoeira do Tabuleiro. A parte longitudinal central da folha remete ao CaSHi.
O trabalho e esforço para a concretização desta trilha de longo curso caminhou simultaneamente com a elaboração de um livro intitulado Minas Gerais e Orléans: olhares cruzados no Caminho Saint Hilaire, que busca explicar a idealização do Caminho Saint Hilaire e toda sua riqueza natural, cultural e potencialidade turística. A obra foi organizada pelo presidente do Instituto Auguste de Saint-Hilaire, Luciano Amador dos Santos Jr. e contou com a participação de autores ligados à Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e da sociedade civil. A obra apresenta cartas de apoio das prefeituras envolvidas e foi financiada pela Embaixada da França no Brasil, na figura do Adido de Cooperação e Ação Cultural do estado de Minas Gerais à época, Sr. Philippe Makany. O livro está disponível para download na página do Caminho Saint Hilaire (acesse aqui).
A obra Minas Gerais e Orléans: olhares cruzados no Caminho Saint Hilaire foi dividida em 4 partes e 9 capítulos. A Parte I, no primeiro capítulo, traz informações sobre a vida de Saint-Hilaire na França: sua origem, vocação e a carreira como botânico antes de sua vinda ao Brasil, em 1816. No segundo capítulo, apresentamos a concepção do Caminho Saint Hilaire e as características do território em que está inserido. Na Parte II, dividida em 3 capítulos, buscamos reverberar a importância paisagística em uma Reserva da Biosfera, a geodiversidade e a biodiversidade. Invocamos a paisagem, as plantas e flores encontradas na região, a relevância ecológica mundial dos Campos Rupestres, bem como a “serventia” de inúmeras dessas plantas para o ser humano, seja na culinária, seja na medicina. A Parte III conta com capítulos que buscam descrever a riqueza das construções arquitetônicas pelo caminho, nas cidades e povoados. Pontuamos o modo de fazer os queijos – patrimônio dos mineiros – e o processo alquímico da fabricação de vinhos, no passado e no presente. Outro destaque é o encontro entre duas personagens femininas: Chica da Silva recebe Joana d’Arc: memórias que se cruzam no Caminho Saint Hilaire. A Parte IV remete à concepção do projeto Caminho Saint Hilaire, sua marca, identidade, propostas de sinalização da trilha com intuito de ofertar aos visitantes um pouco de toda a riqueza natural e cultural desta região, uma volta ao passado e a possibilidade de desenvolvimento para as comunidades locais. Finalizamos o volume com uma “viagem” pelo Caminho pelo olhar de um viajante fascinado pelas suas belezas naturais, históricas e do seu povo.
Atualmente o CaSHi possui sua gestão e planejamento realizada pelo Instituto Auguste de Saint-Hilaire e apresenta uma diretoria composta por representantes dos municípios de Diamantina, Serro e Conceição do Mato Dentro. O caminho é membro fundador da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso e encontra-se em etapa final de mapeamento com apoio de profissionais e de instituições como o Instituto Estadual de Florestas (IEF). A próxima etapa será a sinalização da trilha. Dos 170 quilômetros do CaSHi, menos de 12 km se darão por acessos em rodovias asfaltadas, sendo o restante do caminho em trilhas rústicas e estradas vicinais.
O percurso também pode ser feito de bicicleta. Foto: Luciano Amador dos Santos Jr.
Cabe ressaltar como proposta do projeto que o trecho entre Serro e Diamantina, atual LMG-735, está em processo alteração de nome para ‘Via Saint-Hilaire’ na Assembleia Legislativa do estado de Minas Gerais, com intuito de fortalecer a identidade territorial da trilha. Além disso, há uma proposta para criação de uma unidade de conservação: o Parque Natural Auguste Saint-Hilaire, nas proximidades do povoado do Vau, no município de Diamantina.
A proposta para o turismo vincula-se ao desenvolvimento regional por meio dos princípios do turismo criativo e de base comunitária, uma vez que o caminho passa por 12 pequenas localidades pertencentes aos três municípios. Neste sentido, almeja-se que características locais sejam respeitadas e ‘experienciadas’ pelas pessoas, promovendo a autoestima dos membros comunitários ao fortalecer o sentimento de pertencimento pelo território, e ajudando a impulsionar o desenvolvimento socioeconômico regional pelo turismo responsável.
O CaSHi está situado nos contextos: histórico da Estrada Real; territorial do Mosaico Alto Jequitinhonha Serra do Cabral e do Circuito Turísticos dos Diamantes; e ambiental da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, em diálogo com as Trilhas Transespinhaço e Verde da Maria Fumaça; e conta com três chancelas da UNESCO. O caminho é um espaço propício para novas formas de viajar e, ao mesmo tempo, constitui um convite a um novo perfil de turista, atento e sensível aos modos de vida dos lugares, suas paisagens naturais e culturais, consciente dos impactos de seu deslocamento e compromissado com a realidade visitada.
Em essência, um caminho de experiências únicas no mundo, dedicado à transformação humanística e científica à luz da valorização e da conservação da natureza, da preservação dos patrimônios materiais e imateriais e, do desenvolvimento dos povos e comunidades que dão sentido histórico, sociocultural, material e simbólico a esses incríveis lugares de vida que o integram.
Assista a live da Rede Brasileira de Trilhas em parceria com ((o))eco sobre os Caminhos de Saint Hilaire:
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